quinta-feira, 25 de julho de 2019

Estágio: passo importante na formação do enólogo


Graduandos de TVE dividem suas experiências em estágios e afirmam: contato com o ‘mundo real’ é surpreendente e fundamental para se ter uma visão clara da profissão


           
A aluna Isabella Magalhães durante estágio na Guaspari
O
papel do enólogo começa no campo, nos cuidados com a uva, matéria-prima essencial para se produzir um vinho de qualidade. Muitas vezes, o manejo da videira corre tranquilamente, até que a natureza muda o seu humor e coloca tudo a perder, trazendo prejuízos ao produtor (em 2016, por exemplo, o Rio Grande do Sul teve 57% de quebra na safra de uva, devido a fortes chuvas e geadas). Por outro lado, se tudo corre bem no parreiral, o papel desse profissional torna-se ainda mais desafiador: não estragar a matéria-prima. Afinal, é o enólogo quem vai, a partir da uva colhida, definir o tipo de vinho que será produzido.
            Durante a formação, um tecnólogo em viticultura e enologia aprende a percorrer todo o caminho da bebida, que vai do campo ao copo. Contudo, a realidade de uma instituição de ensino, ainda que tente, representa apenas uma ínfima fração do que de fato acontece no mundo real. Por essa razão, o estágio torna-se primordial na vida do estudante. É nessa etapa que ele toma conhecimento dos desafios climatológicos, da concorrência, contato e uso de maquinário de ponta, da produção em larga escala. Ainda, estagiando ele pode definir a área de atuação que mais lhe apetece nesse segmento, como o campo, a cantina, o enoturismo, a comercialização, o laboratório ou o serviço de sommelier.
            “Para mim, o estágio tem sido muito importante por me dar uma vivência que o IF (Instituto Federal) não pode me dar, como o contato com a poda, a colheita, o crescimento da planta, os defensivos agrícolas usados e as doenças da videira”, explicou Luísa Tannure, aluna do sexto período do curso de TVE (Tecnologia em Viticultura e Enologia) do campus São Roque do IFSP (Instituto Federal de São Paulo).
           
Luísa: estagiária da Casa da Árvore
Desde janeiro passado, Luísa é estagiária da Vinícola Casa da Árvore, localizada na Rota do Vinho de São Roque, interior de São Paulo, cujo forte é a produção do suco de uva integral.
            Ex-bolsista do laboratório de vinificação do instituto, ela diz que na vinícola, além do contato com o vinhedo, o que o campus do IFSP não dispõe (possui uma estufa e as aulas práticas normalmente ocorrem em vinhedos de vinícolas parceiras da região), pode vivenciar uma escala de produção maior de vinho e, principalmente, de suco de uva.
            “Posso dizer que, no laboratório do IF, aprendi tudo sobre vinho, embora a produção fosse numa escala menor. A experiência lá também me deu confiança no estágio. O suco de uva, no entanto, foi uma novidade para mim”, disse a aluna, que, na graduação, só teve contato com a produção de suco no quinto período, na disciplina de Derivados da Uva e do Vinho (DUV).
            Outra novidade para Luísa no estágio foi o contato com o enoturismo. “O lado turístico de São Roque, especialmente a Rota do Vinho, é muito importante, uma vez que o enoturismo tem sido essencial para os negócios das vinícolas”, ressaltou.
            
Chandon

           
Antonio (à esq.) e Lucas na Chandon
Lucas Holl Bertoni e Antonio Claro, também do sexto período do curso de TVE, aproveitaram as férias de dezembro passado para estagiarem na Chandon, grande produtora de espumantes localizada em Garibaldi, no Rio Grande do Sul.
            Ao contrário de Luísa, no estágio eles não tiveram contato com a parte de viticultura, pois a vindima já havia ocorrido, e ficaram basicamente na cantina. E afirmam que aprenderam muito.
            “No instituto nós temos uma produção mais ‘caseira’, em pequena escala. É bem diferente numa indústria grande”, disse Lucas.
            “No estágio na cantina, ficamos na estação de tratamento de mosto, operando equipamentos que tínhamos visto em sala de aula, mas que não tivemos contato. O estágio foi ótimo para vermos na prática o que vemos na teoria, pois vemos bastante coisa, mas não temos ideia de como funcionam, como maquinário, bomba”, complementou Antonio.
            Falando em aprendizado, Antonio frisou que em momento algum sentiu-se inseguro no estágio. Ele e Lucas, inclusive, elogiaram a base teórica aprendida no instituto, o que lhes deu suporte durante o período na Chandon. “Eu sabia exatamente o que estava fazendo”, afirmou Antonio.
           
Antonio: vendo a teoria na prática
Os dois também disseram que, após o estágio, o entendimento da produção de vinhos, sejam tranquilos ou espumantes, ficou mais fácil quando leem artigos e/ou livros a respeito do assunto. “Se eu vir primeiro na prática, aprendo mais depois com a teoria”, disse Lucas.
       Ambos afirmaram ter sido muito bem recebidos na empresa e teceram muitos elogios ao enólogo responsável da Chandon, Juliano Perin. “Ele é muito experiente, fez várias safras pelo mundo. Passei a admirar ainda mais esse profissional por causa dele”, enfatizou Lucas.
            “O Juliano nos orientou bastante. Nós passávamos todos os dias nos tanques para verificar se havia algum desvio metabólico da fermentação, para identificarmos algum possível problema. Ele fez uma sessão de análise sensorial com a gente para vermos cada vinho que era produzido lá e como se modificava no decorrer do tempo para fazer os cortes. Isso foi muito bacana”, explicou Antonio.
            Após o estágio, a visão de Lucas sobre o mercado de trabalho mudou completamente. “Quebrei o estereótipo da vinícola com teia de aranha. Impressionou-me a limpeza da Chandon. Além disso, a região lá é muito parecida com São Roque e, por isso, vi que há muito potencial aqui ainda não explorado”, disse.
            A percepção sobre a profissão também mudou para os dois. “Comecei a faculdade achando que tínhamos pouca oportunidade de emprego, mas vi que há muitas, pois ainda há pouca mão de obra especializada nesse setor”, pontuou Lucas. “Vi que gosto muito de vinícola e o estágio foi essencial para eu querer continuar na área”, completou Antonio.

Guaspari

            Nas férias de julho do ano passado, Isabella Magalhães, aluna do quinto período de TVE, conseguiu um estágio numa das mais premiadas vinícolas do Brasil, a Guaspari, no interior de São Paulo.
           
Isabella quer trabalhar no enoturismo
Todos os dias, ela media a temperatura e densidade dos tanques (indicadores usados para avaliar a fermentação), cuidava da limpeza da vinícola, pesagem de insumos, análises laboratorias e outras atividades inerentes à produção de vinho. No campo, ela não estagiou tanto, mas aprendeu sobre como ver o ponto certo da maturação da uva.
            Aos fins de semana, a graduanda estagiou no enoturismo e disse que foi justamente esta a área que mais a agradou. “O enoturismo foi a parte que mais me encantou! Antes do estágio, achava que era chata e monótona, mas vi que é muito legal trabalhar com as pessoas, com a imagem do vinho, ver como vendem o produto”, contou.
            A exemplo dos demais entrevistados, a experiência prática agregou muito para ela no aprendizado teórico, dando-lhe uma visão mais ampla do mercado. “Fiquei muito mais empolgada com o curso, tanto que quero me especializar ainda mais na área, fazendo mestrado.”

Oportunidade

            Você deve estar se perguntando como os alunos conseguiram essas vagas, não é mesmo? Lucas e Antonio foram selecionados ao estágio na Chandon por intermédio do próprio instituto, que foi contatado pela empresa.
            Como estagiou no laboratório de vinificação do IF, Luísa ficou sabendo que a Casa da Árvore buscava um estagiário e foi atrás. Isabella, por sua vez, foi convidada a fazer uma entrevista na Guaspari por meio de um conhecido, que a indicou.
            “O mais importante é que o aluno não fique esperando a oportunidade aparecer – simplesmente vá atrás! Ele deve acreditar em si. Se conseguir conciliar o estágio com a faculdade, é ótimo!”, aconselha Luísa.

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quarta-feira, 10 de julho de 2019




GRADUANDA E EGRESSO DO CURSO DE TVE DO IFSP SÃO ROQUE PARTICIPAM DE CONGRESSO DE VITICULTURA NA GRÉCIA

Luísa Tannure e Lucas Amaral participaram do 21º Giesco, congresso internacional que foi sediado em Tessalônica, na Grécia, em junho.


Luísa Tannure e Lucas Amaral, durante visita a vinhedo na Grécia 

O Giesco é um dos principais eventos mundiais do setor de vitivinicultura, com o propósito de discutir os principais dilemas do setor. Na 21ª edição do evento, realizada este ano, o tema foi “Uma visão multidisciplinar acerca da viticultura sustentável”, debate que vem ganhando cada vez mais espaço diante dos desafios climáticos que se impõem aos produtores de uva e vinho. Cada vez mais, eles têm buscado meios de tornar a viticultura uma cultura mais sustentável e coadunada com as questões ambientais.  

Luísa em frente ao painel de apresentação dos trabalhos
Conforme Luísa Tannure, aluna do sexto período do curso de Tecnologia em Viticultura e Enologia (TVE) do campus São Roque do Instituto Federal de São Paulo (IFSP), que esteve presente no evento que ocorreu na cidade de Tessalônica, na Grécia, entre 23 e 28 de junho, o objetivo do congresso é promover a produção de uva, tanto no âmbito regional como internacional, para desenvolver novas técnicas e inovar o plantio da fruta em um futuro com mudanças climáticas.

O congresso acontece a cada dois anos e é considerado um dos eventos científicos mais importantes relacionados à vitivinicultura. Luísa esteve lá com o Lucas Amaral, egresso da turma de 2017 do curso de TVE, e que hoje é mestrando em Ciência dos Alimentos na Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade de São Paulo (USP) e pesquisador associado do FoRC (centro de pesquisas em alimentos) da mesma universidade.

Lucas levou seu projeto de pesquisa ao evento
Lucas apresentou seu projeto de pesquisa no evento, no qual estuda a composição volátil de vinhos produzidos com a uva Syrah, em São Paulo, com inversão de ciclo. “A participação no congresso foi importante para mostrar os resultados obtidos no projeto, mostrando uma tecnologia, a dupla poda, que ainda é desconhecia para alguns produtores e pesquisadores no mundo. Além disso, também foi importante discutir os resultados com outros pesquisadores que conhecem a tecnologia ou que trabalham com a mesma uva na Índia, França e Austrália”, contou.

Os participantes do congresso puderam visitar diferentes regiões produtoras de vinho no norte da Grécia, como Naoussa, onde predomina o plantio da variedade tinta autóctone Xinomavro; Amyndeon, onde puderam encontrar videiras centenárias ainda produtivas; Kavala-Pangeon, local em que predominam as variedades brancas, como Sauvignon Blanc e Assyrtiko; e também Drama, onde a maior parte dos vinhedos são compostos de Cabernet Sauvignon, Merlot e Syrah, mas também cultivares autóctones tintas como Agiorgitiko.

Para Luísa, que também foi bolsista do laboratório de vinificação do IFSP, a experiência foi enriquecedora. “Foi muito enriquecedor conhecer as vinícolas e os vinhedos, alguns com sistemas de condução pouco usados no Brasil, e que até então nunca os tinha visto. Também gostei muito de apresentar o projeto porque ajudei nas vinificações quando era bolsista.”

Na opinião de Lucas, o congresso contribuiu para mostrar-lhe novos caminhos em seu mestrado e, quem sabe, até um futuro doutorado. “Ver as apresentações orais foi interessante para conhecer, diretamente com os autores de projetos, o que está sendo pesquisado hoje em dia. Foi uma honra poder participar deste evento com os maiores nomes das áreas de Viticultura e Enologia.

Luísa complementou: “Gostei de conhecer os pesquisadores que já usei inúmeras vezes como referências para meus trabalhos. Todos foram gentis e nos trataram muito bem. Também foi interessante encontrar mais brasileiros, como a pesquisadora do IAC (Instituto Agronômico de Campinas), Mara Fernandes Moura, e o professor da UNIPAMPA – campus Don Pedrito, Juan Saavedra del Aguila.”


Colaboração de Luísa Tannure.